O caso da soldado Gisele Alves Santana, ocorrido no Brás, em São Paulo, reúne um conjunto de indícios que, para a investigação, desmontam a versão inicial de suicídio e sustentam a acusação de feminicídio e fraude processual contra o tenente-coronel Geraldo Neto.
Aqui vai uma análise clara dos principais pontos:
📱 Manipulação do celular
- O celular de Gisele foi desbloqueado após o disparo, segundo a perícia.
- Há registros de uso do aparelho antes e depois da ligação para o 190, feita por Geraldo.
- Mensagens foram apagadas do celular dele, mas recuperadas no aparelho dela.
👉 Isso sugere tentativa de alterar provas digitais para sustentar uma versão diferente dos fatos.
💬 Conteúdo das mensagens
As conversas recuperadas mostram que:
- Gisele aceitava a separação.
- Não havia dependência emocional ou submissão naquele momento.
-
Ela afirma claramente sua autonomia:
“tenho minha dignidade”
👉 Isso enfraquece a hipótese de suicídio por desespero e indica um contexto de ruptura consciente.
⏱️ Linha do tempo contraditória
- Tiro ouvido por vizinha: 7h28
- Ligação para o 190: 7h54
- Desbloqueios do celular: antes e depois da ligação
👉 Há um intervalo de tempo não explicado, além de uso do celular incompatível com a versão apresentada.
⚠️ Histórico de violência e comportamento
Testemunhas relataram:
- Episódios de agressão física (empurrões, sufocamento)
- Comportamento controlador e ciumento
- Mudança no comportamento de Gisele na presença do marido (ficava tensa e retraída)
👉 Esse padrão é compatível com ciclos de violência doméstica, frequentemente presentes em casos de feminicídio.
🔬 Laudos periciais
Segundo o Ministério Público:
- A perícia indica que o disparo não foi autoinduzido
- Há indícios de que ele segurou a cabeça da vítima ao atirar
- A cena do crime teria sido manipulada
👉 Esse é o ponto mais forte: a prova técnica contradiz diretamente a versão de suicídio.
🎥 Comportamento após o crime
- Imagens mostram o tenente-coronel interferindo na preservação do local
- Ele teria:
- Circulado livremente
- Insistido em tomar banho
- Permitido alterações na cena
👉 Isso reforça a suspeita de fraude processual.
🧩 Conclusão da investigação
A soma dos elementos aponta para:
- Motivação: separação e possível perda de controle sobre a vítima
- Meio: uso de arma de fogo em contexto doméstico
- Conduta posterior: tentativa de encobrir o crime
➡️ Por isso, o caso foi enquadrado como:
- Feminicídio (homicídio por razões de gênero)
- Fraude processual (alteração da cena do crime)
A análise de dados feita pela investigação da Polícia Civil no celular da soldado Gisele Alves Santana, que morreu após ser encontrada baleada na cabeça dentro do apartamento em que morava no Brás, Centro de São Paulo, apontou que o aparelho foi manuseado e desbloqueado minutos após o tiro disparado e teve mensagens apagadas pelo marido, o tenente coronel Geraldo Neto. Geraldo foi preso preventivamente em 18 de março, quando se tornou réu na Justiça por feminicídio e fraude processual. Inicialmente, ele afirmou que a esposa havia se suicidado após uma discussão, mas a versão foi descartada após laudos apontarem feminicídio (veja mais abaixo). Segundo a investigação, o celular de Gisele foi desbloqueado pela última vez às 7h58min18s. Também houve outros desbloqueios às 7h47min29s e às 7h49min24seg. No entanto, o tenente-coronel já havia ligado para o 190 antes disso, às 7h54min58s. A essa hora, Gisele já havia sido baleada. Aos investigadores, uma vizinha afirmou que ouviu um estampido único e forte às 7h28. Já em relação às mensagens, a polícia afirma que não havia, no celular do tenente-coronel, nenhuma conversa com Gisele no dia anterior à morte, 17 de fevereiro. No entanto, os dados recuperados do aparelho dela mostram o contrário: os dois trocaram mensagens naquele dia, incluindo discussões sobre o divórcio. As conversas apagadas foram recuperadas pela polícia e apontam que a última mensagem de Gisele para o marido foi enviada às 23h, em que ela dizia que Geraldo podia entrar com o pedido de divórcio. Veja transcrição abaixo das mensagens recuperadas:
Gisele às 22h47: Mas já que decidiu separar, Policiais militares relataram à Polícia Civil que tiveram conhecimento de episódios de agressividade do marido dela, o tenente-coronel Geraldo Neto, dentro do quartel. Uma das testemunhas, que atuava no Departamento de Suporte Administrativo do Comando Geral (DSA/CG), afirmou que soube que, durante uma discussão em um corredor entre a reserva de armas e a seção de logística, ele teria segurado Gisele pelos braços e a pressionado contra a parede. Outra policial do mesmo departamento disse ter ouvido de colegas que câmeras de segurança do quartel já teriam registrado o oficial com as mãos no pescoço da vítima, em uma situação descrita como um tipo de sufocamento. Há ainda relatos de que, antes do casamento, o comportamento do tenente-coronel já havia motivado medidas internas. Uma policial afirmou que ele chegou a ser impedido de entrar no quartel após militares da guarda presenciarem uma discussão considerada mais agressiva entre o casal.
O caso teria chegado ao comando, que conversou com Gisele, e o tenente-coronel foi afastado temporariamente do local. Depois do casamento, segundo a mesma testemunha, ele voltou a frequentar o quartel. Após esses episódios, os depoimentos apontam para um padrão de comportamento considerado controlador e marcado por ciúmes excessivos. Testemunhas relataram que Gisele demonstrava preocupação com a reação do marido até mesmo em relação ao ajuste da farda ou ao uso de itens de beleza. Por fim, policiais disseram que, na presença do tenente-coronel, Gisele mudava de comportamento. Descrita como uma pessoa extrovertida no ambiente de trabalho, ela ficava mais calada, reservada e tensa quando ele aparecia, o que, segundo os relatos, era percebido por diversos colegas. Laudos e provas de feminicídio Segundo o Ministério Público, laudos periciais, reprodução simulada e mensagens analisadas indicam que o tenente-coronel segurou a cabeça de Gisele e atirou contra ela, descartando a hipótese de suicídio.
Na sequência, ainda segundo a acusação, ele teria manipulado a cena do crime para simular que a soldado teria tirado a própria vida, o que fundamenta a imputação de fraude processual. Gravações das câmeras corporais de policiais militares mostram a disputa de poder hierárquico entre um cabo, que queria preservar o local em que Gisele foi baleada na cabeça – e a autoridade de um oficial de alta patente, o marido dela. As imagens foram feitas no dia do crime, em 18 de fevereiro. Fotos e diálogos das imagens feitas pela câmera corporal do cabo mostram esse embate entre ele e o tenente-coronel (veja vídeo acima). É essa soma de condutas, insistir em tomar banho, entrar e circular apesar das advertências, afastar equipes, permitir limpezas e retornar para retirar itens, que robustece a desconfiança sobre a tese de suicídio defendida por Neto e reposiciona o foco do inquérito. Gisele às 22h48: Agora podemos tratar de como vou sair Gisele às 22h59: Vc confundiu carinho com autoridade, amor com obediência, provisão com submissão Gisele às 23h: Vejo que se arrependeu do casamento, eu tbm, e tem todo direito de pedir o divórcio não quero nada seu, como te disse eu me viro pra sair tenho minha dignidade Gisele às 23h: Pode entrar com pedido essa semana Para a investigação, as conversas foram apagadas para o tenente-coronel sustentar a versão de que seria o responsável pelos pedidos de separação, e não a vítima.
